Blog

Segurança pública no centro do debate eleitoral

março 2026

Por Arilton Freres, sociólogo e diretor do Instituto Opinião

A segurança pública deve ocupar um dos espaços centrais na próxima campanha presidencial no Brasil. Não apenas porque o tema mobiliza emoções e percepções sociais profundas, mas porque os números mostram que a violência continua sendo um dos maiores desafios estruturais do país. Mesmo com oscilações positivas em alguns indicadores, o cotidiano da população ainda é marcado pelo medo, pela sensação de insegurança e pela presença crescente do crime organizado em diferentes regiões.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgados no Atlas da Violência 2025, consolidando informações de 2023, ajudam a dimensionar o cenário. O Brasil registrou 45.747 homicídios naquele ano, com taxa de 21,2 mortes por 100 mil habitantes. Trata-se do menor índice em mais de uma década, mas ainda extremamente elevado para padrões internacionais. Quando considerados os homicídios estimados, incluindo subnotificações, o número chega a 49.502 mortes.

A violência apresenta forte desigualdade regional. Norte e Nordeste continuam concentrando as maiores taxas de homicídios, enquanto estados do Sul e do Sudeste apresentam indicadores menores. O Amapá lidera com taxa de 57,4 por 100 mil habitantes, seguido por Bahia e Pernambuco. Em contraste, São Paulo registra 6,4. Entre jovens de 15 a 29 anos, a situação é ainda mais alarmante: quase metade das vítimas de homicídio pertence a essa faixa etária.

Outro dado relevante é o recorte social da violência. Pessoas negras seguem sendo as principais vítimas, com risco 2,7 vezes maior em relação a não negros. Entre mulheres, foram registrados 3.903 homicídios em 2023, com crescimento preocupante da violência doméstica. Esses números reforçam que a violência no Brasil não é apenas um problema policial, mas também social, econômico e territorial.

Apesar disso, o debate público frequentemente ignora essa complexidade. A Constituição brasileira estabelece que a segurança pública é responsabilidade dos estados, mas a disputa política nacional transforma o tema em ferramenta eleitoral. Isso deve se intensificar na próxima eleição presidencial, colocando em lados opostos narrativas sobre repressão, prevenção e gestão da segurança.

Letalidade policial

Nos últimos anos, a discussão ganhou novos contornos com o avanço do debate sobre letalidade policial, especialmente no Rio de Janeiro. Operações em comunidades com elevado número de mortes passaram a gerar forte repercussão social. Em muitos casos, parte significativa da população reage com apoio imediato às ações mais violentas, interpretando os resultados como sinal de combate direto ao crime. No entanto, especialistas apontam que esse tipo de resposta simplifica o problema, já que as estruturas financeiras e organizacionais das grandes facções criminosas permanecem distantes desses confrontos territoriais.

Esse cenário revela uma contradição importante: enquanto operações com alto número de mortes produzem sensação imediata de resposta estatal, elas nem sempre atingem os níveis estratégicos do crime organizado. A discussão sobre o papel real das forças policiais, portanto, tende a ganhar espaço no debate eleitoral.

Ao mesmo tempo, observa-se uma tentativa gradual de maior protagonismo federal na pauta da segurança. Um exemplo recente foi a atuação da Polícia Federal em operações financeiras contra organizações criminosas, incluindo ações em áreas empresariais de alto padrão, como a Avenida Faria Lima, em São Paulo. Essas operações ampliam o foco para o combate à lavagem de dinheiro e à estrutura econômica das facções, campo em que a atuação federal é mais direta.

Ainda assim, esse tipo de ação costuma gerar menor impacto imediato na percepção pública quando comparado às operações armadas em territórios urbanos. Para grande parte da sociedade, o enfrentamento visível nas comunidades parece produzir resultado mais concreto, mesmo que, na prática, o enfraquecimento estrutural do crime organizado dependa justamente de investigações financeiras e inteligência policial.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a defender políticas integradas, com foco em inteligência, cooperação federativa e programas sociais. Já setores da oposição devem reforçar o discurso de endurecimento penal e ampliação do uso da força policial, retomando uma estratégia política que ganhou força durante o governo de Jair Bolsonaro.

Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, a Frente Povo Negro Vivo, composta por mais de 100 organizações da sociedade civil, participa de ato público no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da USP, no Centro de São Paulo. O evento tem como objetivo denunciar a violência policial e de Estado que atinge, de forma desproporcional, a população negra e periférica no Brasil, além de reivindicar o impeachment do governador Tarcísio de Freitas e do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

PL Antifacção

Esse embate começou a se materializar com a aprovação, pela Câmara dos Deputados do Brasil, do chamado PL Antifacção, que endurece penas para crimes ligados a organizações criminosas e milícias. O projeto teve como relator o deputado Guilherme Derrite, ex-integrante da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, unidade historicamente associada a ações de confronto direto.

Derrite é ligado politicamente ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, hoje um dos principais nomes da direita nacional. Sob sua gestão na Secretaria de Segurança paulista, a letalidade policial voltou a crescer, reacendendo o debate sobre modelos de policiamento baseados prioritariamente na força.

O problema, no entanto, não é apenas a política de segurança que se pratica, mas a forma como se fala sobre ela. A direita simplifica o discurso, promete punição imediata e transforma medo em resposta pronta. Parte da esquerda, por outro lado, ainda trata o tema como se estivesse em um seminário acadêmico, distante da exaustão cotidiana de quem vive cercado pela violência.

Moradores de regiões dominadas por traficantes e milícias não querem ser tratados como estatística nem comparados a criminosos. Querem proteção real do Estado.

Especialistas em segurança pública têm apontado caminhos mais consistentes. Estudos mostram que estados que adotaram gestão por metas, integração entre forças policiais e programas de prevenção social conseguiram reduzir homicídios de forma sustentada. Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais e Paraíba são exemplos de políticas baseadas em inteligência policial, monitoramento de indicadores e ações multissetoriais.

Essa chamada “revolução invisível” demonstra que não existe solução simples. A redução da violência depende de planejamento, continuidade administrativa e investimento em tecnologia, investigação e políticas sociais. Não se trata de escolher entre repressão ou prevenção, mas de integrar ambas de forma estratégica.

A próxima eleição presidencial deve transformar a segurança pública em um dos principais campos de disputa política. Mais do que slogans ou narrativas ideológicas, o país precisa discutir resultados concretos. A população brasileira não quer apenas discursos mais duros ou mais sofisticados. Quer viver com menos medo.

Arilton Freres é sociólogo formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desde 2000 atua na área de pesquisas de opinião pública. Em 2007, fundou o Instituto Opinião Pesquisas, sediado em Curitiba, que presta serviços para empresas e órgãos públicos em todo o país.

arilton@institutoopiniao.com.br